sábado, 24 de junho de 2017
Motociclista
Eram quatro no total. Duas de cada lado. Lindas. Quatro linhas que se destacavam a cada sorriso discreto e davam ar meigo àquele rosto que está há pouco tempo na casa dos 30 anos. Eu me perguntava porque gostava tanto daquilo. Simetria perfeita, como se um olho e suas duas marcas fosse o espelho do outro. Aquelas linhas faciais, que podem ter se formado por preocupação, estresse ou talvez sejam apenas de nascença, faziam meu olhos penetrarem nos dele. E se os olhos são mesmo a janela da alma, eu posso dizer que o conheci na essência.
A conversa foi longa e atravessou a noite. Descobri bobagens como time, profissão e signo. Demos risadas, andamos de mãos dadas, nos tratamos com intimidade. E, mais tarde fui perceber, esqueci de perguntar o nome. 'A gente se encontra na estrada', ele me disse, antes de subir na moto e voltar para sua cidade. Nunca mais voltei a vê-lo.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Janela indiscreta
É baixinho, veste camisa e calça social. Mas nada de terno. Deve ser simpático. Poderia dizer um “oi” se a sala ficasse aberta. Pelo jeito, portas escancaradas e conversas altas são particularidades nossas. Anda de um lado para o outro, como se analisasse o tamanho da baderna e parasse para decidir por onde pode começar. Parece que nunca estará tudo em ordem. E se continuar no ritmo em que está, vai demorar muito mesmo.
Será que brigou com o sócio e decidiu seguir sozinho? Se a quantidade de caixas significar anos de trabalho, diria que tem experiência de sobra. Deve ser um quarentão. Não. Ele não é atraente. Não no sentido físico. Entretanto, para quem passou anos com a mesa de trabalho virada para uma parede, esse é um prato cheio. Se eu olhar para o alto, ainda posso degustar da imagem de inúmeras árvores. Já me disseram que há até papagaios e esquilos por aqui. Mas eu ainda não vi.
Embora eu é que esteja em um lugar fechado, é como se minha janela fosse o vidro de um aquário gigante que está à disposição do meu entretenimento. Já a sala ao lado é um caso a parte - quase um reality show. Dentro e fora também podem ser uma questão de referencial.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Em cinco minutos - Parte II
Pessoas indo e vindo. De terno e de jeans. De salto e de tênis. Gordos e magros. Bem cuidados e feios. Duas mulheres se encontraram e pararam para conversar. Risadas, fofocas e abraços. Despediram-se e cada uma foi para um lado. Uma garota parecia ansiosa. Provavelmente esperava alguém. Era o namorado. Foi recebido com beijos e abraços. Trazia um sorriso que estampava a felicidade em vê-la. Dois homens passaram conversando. Deviam vir do trabalho. Estavam de social. Uma mulher passou quase correndo. A pressa deixava o salto ainda mais torto. A outra devia ser bailarina. O sapato baixo deixava o passo mais leve e suave. Andava como se dançasse. Era bonito vê-la. Um homem passou caminhando devagar. Olhava para baixo. Talvez estivesse triste. Ou só cansado. Um grupo de amigos vinha em minha direção. Conversavam e riam. Divertiam-se.
Lá fora, o Michael Jackson havia morrido. O presidente de Honduras pediria ajuda à ONU. Os casos de infectados pela gripe suína continuavam em ascensão. Outro avião tinha caido. E ainda havia a crise no senado.
Eu estava no metrô. Do lado da catraca. Esperava uma pessoa. Mas observava todos. Cada um que passava. O tempo parecia correr menos. Embora o ponteiro dos segundos não tenha diminuido a velocidade.
Cada uma daquelas pessoas que passavam por mim tinham milhares de histórias para contar. Vinham de algum lugar e iriam para um outro. Poderiam rir para disfarçar a tristeza, andar com pressa para não perder o encontro ou caminhar devagar por não querer voltar logo para casa. Não havia como saber. Quem eu esperava logo chegou. Cinco minutos nunca renderam tanto.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
No ritmo da Virada
Alguns falam mal da organização e do público, mesmo quando é possível encontrar famílias inteiras andando de mãos dadas pelas ruas. Dizem que há confusão, referindo-se a uma briga que aconteceu dois anos atrás em um show dos Racionais – naquele dia, eu estava ali do lado e não vi nada.
Esquecem-se do objetivo do evento: promover cultura de forma acessível a todos – gratuitamente. Rock, samba, MPB, forró, teatro, cinema, exposição. Uma atração em cada esquina. E há desde nomes de pouco sucesso até atrações internacionais. Alguém, algum dia, já imaginou ver John Lord, ex-tecladista do Deep Purple, tocando com a orquestra sinfônica municipal?
É por essas e outras que gosto tanto da Virada Cultural. Essas 24 horas de atrações ainda nos reservam outras peculiaridades.
São momentos marcantes:
Essa é a única chance que o paulistano tem de andar durante a madrugada pelos arredores do centro de São Paulo sem ser assaltado. E, à noite, aquelas ruas ficam ainda mais lindas. As construções antigas ganham um novo brilho sob a luz do luar.
Em que outro evento é possível tomar café ao som de Matanza?
Os estilos se confundem:
Na aula de salsa, participaram vários cabeludos do metal. Destaque para um cara com camiseta do Manowar que aprendia a rebolar.
Perde-se a noção do tempo:
Em plena 7h da manhã, há pessoas bebendo cerveja e vinho.
A grama da Praça da República mais parecia uma volta aos anos 60, com hippies sentados, dormindo ou cantando.
Ignora-se as regras gramaticais:
Depois de cantar uma música em que parte da letra é “Só acredito no semáforo. Só acredito no avião. Eu acredito no relógio”, o vocalista do Vanguart soltou a melhor pérola da Virada Cultural:
- Eu só tenho duas PALAVRAS para vocês: FO-DA, disse, em alto e bom som, o frontman.
Bem, pelo menos, ele sabe contar até dois.
Só tenho uma reclamação a fazer: deveria ter mais lixeiras. Não foi à toa que a cidade amanheceu uma imundice. É falta de educação da população? É. Mas, se não há muitas latas de lixo, o que se pode dizer?
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Em cinco minutos
Pessoas ignorantes.
O que te faz sorrir?
Ouvir minhas músicas preferidas no rádio.
O que te faz chorar?
Chorar? Humm, eu não queria responder o mesmo que todo mundo - filmes -, mas eu chorei até com “Titanic”.
Depois dessas perguntas, respondidas para um programa de um grupo de alunos de Rádio e TV, fiquei pensativa. Será que só os filmes conseguem me comover? E quanto à vida real?
Ontem, enquanto fazia o caminho da faculdade, no metrô, igual a todos os bons anti-sociais, estava com o meu MP3 no ouvido. Tocava New Radicals:
Ninety miles outside chicago
Can't stop driving
I don't know why
So many questions
I need an answer
Two years later you're still on my mind
Whatever happened to Amelia Earhart
Who holds the stars up in the sky
Is true love just once in a lifetime
Did the captain of the titanic cry?
Estava na estação Sé e cantava uma música que, embora gostasse muito, fazia anos que não ouvia. Do meu lado, havia um garoto, aparentemente de uns 20 anos. Algo estava errado. Olhei melhor. Ele estava chorando. Tímido, olhava para baixo, colocava a mão na testa e chorava disfarçadamente. Era visível a dor que sentia. Enxugava o rosto e, cinco segundos depois, voltava a chorar. E chorava tanto que soluçava e as costas tremiam. Ele era mais alto que eu, mas, daquele jeito, parecia pequeno.
Eu não sabia o que fazer. Queria perguntar o motivo do choro, mas poderia ser inconveniente. Lembrei que, às vezes, gosto de estar sozinha, pensar e sofrer sem ninguém ao meu lado. Só que no aperto de uma das estações mais cheias do Metrô, é difícil estar sozinho. Mas ele estava. Queria abraçá-lo, envolvê-lo em meus braços e dizer que tudo ficaria bem. Não importava que era apenas um estranho. Vê-lo chorar, fez-me ter vontade de chorar também. Sou de peixes. E todo bom pisciano consegue sentir a dor alheia. Teria ele brigado com os pais? Alguém tinha morrido? O choro dele era incontrolável. Devia ter muitos motivos para estar daquele jeito. Enquanto isso, a música continuava:
Someday we'll know
If love can move a mountain
Someday we'll know
Why the sky is blue
Someday we'll know
Why I wasn´t meant for you
Does anybody know the way to Atlantis
Or what the wind says when she cries
I'm speeding by the place that I met you
For the 97th time..... tonight
Chegou um vagão, a porta se abriu e nós entramos. Eu acompanhava cada movimento dele. Queria fazer algo. Ensaiei o que poderia dizer. Mas tudo parecia idiota suficiente para o silêncio ser melhor. Pedro II. Brás. Bresser. Era a minha estação. Eu tinha que descer. E isso significava deixá-lo. Deixar para trás o estranho que tinha acabado de me cativar sem nem mesmo saber que fazia isso.
Eu desci. E não disse uma palavra.
Someday we'll know
Why Samson loved Delilah
One day I'll go
Dancing on the moon
Someday you'll know
That I was the one for you
(yeah yeah yeah yeah)
I bought a ticket to the end of the rainbow
I watched the stars crash in the seaIf
I could ask god just one question
Why aren't you here with me....tonight
Ok. Não sou tão insensível assim, mas sou covarde.
sexta-feira, 6 de março de 2009
Primeiras histórias
Algumas situações são cômicas: o começo é desastroso e o momento nos abriga a agir. Mas claro que a graça só é vista no final, quando, apesar da tensão, tudo deu certo. Depois que o nervosismo se despede, novas idéias surgem. A criatividade posterior mostra que podemos ser melhores do que já fomos. É como um estímulo: que venha o próximo.
Mão na massa
Troca de pauta. Procura de entrevistado. Montagem de roteiro. Mudanças até o último momento. O Pauta Aberta está no ar. Assim foi a produção do primeiro programa. O entrevistado já foi no SBT, na Rede Cultura e em outros canais menores. Nesses lugares, foi levado ao estúdio de carro, recebeu lanche e ficou ao lado de pessoas experientes.
Nós, em uma tentativa de sermos simpáticos para compensar a paciência que ele teve na gravação, pensamos em pagar um lanche e uma bebida. Então, o levamos ao Extra, na Paes de Barros, a dois quarteirões da faculdade. Estudantes universitários não costumam ter muito dinheiro e os arredores não ofereciam grandes opções. Era isso ou algum dos bares com música alta, pegação e bêbados. Sem precisar pensar, fomos ao Extra. Comemos as famosas baguetes do hipermercado acompanhadas de Coca-Cola. Ele ficou apenas na coca.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Entre bares e botecos
Noite. Vila Formosa. Duas garotas. Muito assunto. Pouco dinheiro. Chuva. Foi nesse contexto em que, depois de dispensarmos um bar cheio de bêbados com cara de tarados, fomos parar em uma casa do norte. Para quem não sabe, trata-se daqueles lugares onde há comidas típicas do nordeste, como carne-seca e feijão de corda, e serve-se refeições como dobradinha. O lugar era até bonitinho e havia umas cabeças de boi penduradas na parede – dessa parte eu gostei. Assim, ficamos novamente rodeadas por tiozões, que ainda olhavam estranho por verem duas garotas sozinhas bebendo. E claro que esse episódio tinha que virar um post. Espero não repetir a dose, mas valeu pelas risadas.
E para não dizerem que só vou a lugares estranhos, sábado fui a um barzinho chique no Tatuapé. Sentamos em umas cadeiras bem confortáveis que ficavam em volta de uma mesinha baixa de centro, bem ao estilo “Poderoso Chefão”. Quase me senti uma gangster ali. Só faltou a garrafa de whisky!
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Um jeitinho para tudo
- Por favor, três ingressos para "O Sacrifício".
- Os ingressos acabaram.
- Acabaram?
- Sim, acabaram.
- Faz tempo?
- Desde 12h30.
A gente tenta ser “cult”, mas o mundo é mesmo dos espertos. Neste caso, de quem trabalha pelos arredores da Av. Paulista ou conhece alguém por lá. Era 19h30 e nossas barrigas suplicavam por comida. Mas se quiséssemos ver a peça, o jeito era ficar na fila da desistência a espera de pessoas que tivessem uma boa dor de barriga, de cabeça ou por algum outro motivo não conseguissem chegar no horário. Ou seja: uma hora na fila e mais duas de peça. A barriga tinha que entender. Depois a encheríamos de batata frita e cerveja. E entendeu. Aguardou quietinha as três horas porque nem todos os espertalhões que foram cedo pegar ingressos compareceram na hora.
Também há varias coisas para se fazer em um sábado à tarde: passear com o cachorro, fazer pic-nic no Ibirapuera, cinema, dormir. Mas não, eu queria assistir uma ópera no Teatro Municipal.
- Dois ingressos para "Almahl e os visitantes noturnos", por favor!
- Os ingressos já acabaram.
- Mas no site falava que iria começar a distribuir apenas às 14h.
- E começamos a distribuir às 14h.
- E já acabaram?
- Sim, já acabaram.
Olhei no relógio: eram exatamente 14h05. Minha amiga falava em alto e bom som que é humanamente impossível distribuir tantos ingressos em cinco minutos. Não acreditamos no que ouvimos e ficamos de plantão ao lado da bilheteria para nos certificar de que isso era realmente verdade. De fato, eles repetiram para os outros o que nos disse. O pessoal saia reclamando e nós aproveitávamos para ressaltar que aquilo era impossível. Uns minutos mais tarde, uma mulher saiu com dois ingressos na mão. Eu fui até ela:
- Desculpe, esses ingressos que a senhora pegou é para qual espetáculo?
- "Almahl e os visitantes noturnos".
- Filho da p***!
Pegamos a fila novamente. A mulher da bilheteria tentou nos convencer de que os ingressos que aquela mulher pegou era de alguém que desistiu.
- Mas se nós estávamos na frente dela, por que não deram os ingressos para a gente? Chegamos 14h05.
- Fiquem por aqui, se alguém desistir nós chamamos vocês.
Santa ignorância! Nós ficamos ali o tempo todo e ninguém foi devolver nada. Observei pessoa por pessoa. Alguns minutos depois, um homem fez um sinal para nós. Tímidas, sem saber se o sinal era para a gente, voltamos à bilheteria.
- Oi?
- Quantos ingressos vocês querem?
- Dois.
Discretamente, ele destacou dois ingressos e nos deu. Mais discretamente ainda, dobramos e o guardamos. Estávamos livres para comer porque faltava mais de uma hora para começar a ópera. Nossas barrigas já não agüentavam mais. Agora eles estavam livres para dar ingressos a quem queriam. Afinal, não ficaríamos mais ali enchendo o saco, contando nossa história para as outras pessoas e perguntando qual era o ingresso que os outros tinham na mão quando saiam da fila.
É...O mundo é mesmo dos espertos. E para tudo dá-se um jeitinho.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Cena de cinema
- Hãn?
- Não se preocupem. Ele já pagou.
Já passava das 23h e iríamos trabalhar no outro dia, mas precisávamos discutir sobre o filme que acabávamos de assistir. Uma cerveja. Era somente uma cerveja. O filme foi muito bom e queríamos falar das nossas impressões sobre ele. O longa foi “Queime depois de ler”, dirigido pelos irmãos Coen: um sarcasmo a sociedade fútil que vive hoje. De um lado, um homem obcecado por fazer exercícios e estar em forma. Trair a mulher era quase um hobby para ele. Do outro, uma mulher de meia idade em crise com o próprio corpo. Ela se mostra capaz de fazer qualquer coisa para conseguir dinheiro e aumentar os seios, tirar as rugas, diminuir a bunda e a barriga. Há ainda uma organização que nos mostra a “coisificação” do ser humano. Deixamos de ser alguém, composto de alma, sentimentos e história: está atrapalhando a nossa ação? Então mata. Alguém presenciou o assassinato? Não? Então, está tudo bem. O processo se assemelha muito com um tabuleiro de dama: se para chegar com a peça até o outro lado e fazer uma dama é preciso comer as peças do adversário, então isso será feito. Agora transforme as peças em pessoas e o ato de comer em matar. É mais ou menos isso. Sem falar nas relações amorosas. Todo mundo trai todo mundo. É uma beleza! Estamos na casa da mãe Joana.
- O mesmo cara mandou entregar esse papel para vocês.
Era um bilhete com o nome e dois telefones do cara que nos pagou a cerveja. Alguns minutos depois:
- A conta de vocês já está toda paga. Ele pagou.
Aquilo parecia cena de cinema. De fato, há inúmeros roteiros de longa-metragem em que o cara paga bebida para uma garota. Mais que isso, esse episódio era uma extensão do filme que vimos. Um cara de uns 30 anos pagando cerveja para duas garotas de pouco mais de 20. Não. Não estou me referindo a diferença de idade, mas a forma como ele fez tudo. Pagou nossas cervejas, mandou alguém nos entregar o telefone, ao sair, fez um gesto imitando um telefone com a mão, disse um “me liga” e foi embora. E será que ele acha mesmo que vamos ligar? Não achamos ele bonito e nem podemos dizer que era legal, pois não teve a capacidade de se sentar conosco, se apresentar e puxar assunto. Claro que iríamos preferir falar do filme, mas pelo menos não teria agido como um idiota. Bem...Nós bebemos de graça. Não posso reclamar.
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Encontros e desencontros
Na minha época de ginásio, se duas pessoas não se davam bem, o problema era resolvido depois da aula. Simples assim: "Na hora da saída eu te pego". Como sempre atrai confusões, ouvi essa frase duas vezes. Da mesma menina. Ela era forte, me assustava e era preciso medir as palavras para não comprar briga. Com a confusão já armada, as horas passavam e o medo chegava. E, nesses momentos, não faltavam idiotas para perguntar: "É verdade que fulana quer te bater?". Da primeira vez, um menino que gostava de mim foi me defender. Da segunda eu já não lembro, mas nada aconteceu. Passado uns nove anos, estava eu voltando para casa ontem e, já perto do meu ponto, ela apareceu, toda sorridente:
- Ooooooooi!
- Oi.
- Tudo bem?
- Tudo.
- Quanto tempo...
- Né?
Coça os olhos. Faz cara de sono. Quase tropeça quando o ônibus passa pela lombada. Equilibra-se no banco. Olha para baixo.
Foram os 20 segundos mais longos do dia. Queria ter perguntado como ela estava. De onde estava voltando. Se estava trabalhando ou estudando. Onde estava morando. Mas não perguntei. Não consegui. Achei tudo que eu pensei em falar muito idiota. Ela continua igualzinha. E assustadora também. Talvez não houvesse o que dizer. Embora fossemos da mesma sala, nunca fomos amigas. Por que será, né?
O ônibus parou, ela desceu e cada uma foi para um lado. Iria dizer “tchau”, mas não deu tempo.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Carência Social
- Hãn?
- Tem pessoas que colocam limão no olho para deixar o olho claro. Você sabia? O que acha disso?
Era sexta-feira. Quase meia-noite. Estava voltando para casa. Como de costume, não passei a catraca e sentei na frente, no banco para idosos. Faço isso para pensar na vida, em como foi o meu dia e, logo, adormecer aos poucos, por uns 35 minutos, rezando para acordar antes do meu ponto. Nesse horário o ônibus não lota, não tem trânsito e eu durmo muito bem. Embora já tenha passado da minha casa algumas vezes, confio no meu sexto sentido que vai fazer eu acordar na hora certa. Quase sempre dá certo.
- Acho que faz mal, né?
- Claro! Claro que faz mal.
O homem, que aparentava ter entre 25 e 30 anos, pega papéis com pesquisas sobre a visão.
-Sabe, é muito interessante estudar sobre os olhos....
- Ahan...
- Podemos descobrir muitas coisas sobre os olhos. Muita gente sofre por falta de informação, mas eu estou estudando bastante.
Minutos antes estava com uns amigos em uma conversa de mesa de bar. O tema? Se quando uma pessoa se suicida as que estavam em volta dela devem ou não responder por não tê-la ajudado. Caso alguém próximo teve a possibilidade de ajudá-la e não o fez, é obrigado a pagar em forma de serviços sociais. Não concordei. Acredito que no caos que vivemos, podemos sim deixar de perceber tristeza na outra pessoa, pois mal conseguimos entender a si próprio. Além disso, sempre há outras opções e cada um é responsável pelo o que faz.
Contudo, deixei meu lado anti-social. Conversei com o rapaz até a minha casa. E a conversa foi boa. Ele tem uma doença - não lembro o nome - que afeta a visão. Então, resolveu pesquisar o máximo para entender o que tinha. Gostou tanto do assunto que até quer ser oftalmologista. Tive uma aula sobre retina, córnea, artérias e afins.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Segunda-feira de revoluções por minuto
Segunda. De noite. Paulo Ricardo. Shopping Metrô Tatuapé. Mas quem é que gosta de Paulo Ricardo? Inocência minha. Esqueci de fazer a pergunta mais importante: Quem promoverá o evento? Resposta: Alpha FM, a rádio dos bregas! Sem ofensas, porque adoro a rádio, mas vindo dela, claro que o show lotaria – e lotou mesmo.
Sim, eu tinha aula. Mas era o Paulo Ricardo. Nunca gostei de “Usurpadora”, mas lembro que assistia aos seriados do SBT e esperava até a abertura da novela só para cantar: “Se eu soubesse que ia ser assiiim, tudo por naaada. Eu confesso que acrediteeei, em meiaaas verdaaades....”. Transformava o controle da televisão em microfone e, sozinha em casa, cantava a música com o maior feeling.
Pois bem, lembrei que o frontman é formado em jornalismo e resolvi seguir o conselho do coordenador do meu curso: “É sempre bom ouvir o que os jornalistas mais velhos têm a dizer”. Então, não pensei duas vezes: Fui ao show.
Deveria ter começado às 19h30, mas, assim como casamento, show sempre atrasa. Cheguei às 18h40 e as senhas para sentar nas cadeirinhas já tinham acabado, as grades que davam vista para o palco já estavam cheias e as escadas, que também proporcionariam uma ótima visão, também já estavam lotadas e disputadas, mas foi por lá que fiquei. Foram quase duas horas de apresentação.
Do meu lado esquerdo havia um cabeludo com camiseta do Guns que mostrou ser mesmo fã de Paulo Ricardo. Do direito, uma menina que falava que não imaginávamos o quanto ela amava o frontman. Atrás, estava um segurança, que eu imaginava que estava lá para nos proteger. Mas que nada! O cara sabia todas as letras, ou pelo menos o refrão. E quando tocaram covers de Queen, Beatles, U2, INXS, entre outros, ele também sabia cantar. E não foi só isso, ele pulava e agitava muito. Um exemplo! Já na minha frente estava uma loira que desenhava corações no ar e gritava “lindo” a todo o momento – não que fosse mentira, pois o Paulo Ricardo ainda está no ponto. O curioso foi um pequeno detalhe: O namorado dela estava do lado, tirando fotos e mais fotos para ela. Vai entender essas pessoas, né? Fiquei até com dó do cara.
No palco, a banda estava ótima, mas que o vocalista é um ótimo frontman já não é novidade. Galanteador, envolvente, simpático, carismático e dono de uma linda voz, ele conseguiu fazer todos cantarem, pularem, dançarem e se divertirem – inclusive muitas senhoras de cinqüenta e poucos anos. E a platéia era a mais diversificada possível. Na M. Office tinha até um casal de vendedores que dançava exibindo, cada um, uma cueca branca. Com que intuito? Sei lá...
O fato é que o show foi muito bom e ele conseguiu parar o shopping. Entre sucessos do RPM e muitas covers, até cantou aquela música da Usurpadora que eu tanto gosto. Engajado, comentou sobre as eleições de São Paulo e dos Estados Unidos e conscientizou todos sobre a importância da doação de órgãos. E foi nesse momento que citou o manjado caso do seqüestro de Santo André. O intrigante é o que ele disse sobre o acontecido: “Foi como transformar realidade em filme”. Bem... Ele canta a música de abertura do Big Brother, certo? E esse programa faz o que mesmo? Pois é... Vamos deixar esse assunto para lá. Eu já disse que o show foi muito divertido?
Hoje tem Lobão!
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
O cobrador
Há um tempo, quando voltava para casa da faculdade, uma mulher fazia a viagem comigo e descia no meu ponto. Só que o cobrador, sabendo que ela morava um quarteirão acima do ponto de ônibus, pedia para o motorista parar na rua dela. Eu, confusa e com sono, descia junto com ela. Afinal, a distância seria a mesma, pois eu moro entre o lugar em que o ônibus pára e onde ele deveria parar.
Já faz muito tempo que eu não volto para casa com essa mulher, mas todas as vezes em que esse cobrador está, ele pede para o motorista me deixar nessa mesma rua. Para mim não faz diferença, mas ele faz isso sempre. E diante de pessoas que se demonstram cada vez mais frias, acho a ação dele tão bonita que não tenho coragem de dizer que não precisa parar lá.
Essa história pode até parecer idiota. Eu sei. Mas ela me faz ver que ainda existem pessoas boas. Ele não ganha nada com isso. Há coisas que são tão pequenas e ao mesmo tempo tão importantes. Então eu agradeço e, inevitavelmente, desço com um sorriso na cara. Deveria existir mais pessoas assim!